Reprodução humana na vida real
Em Caminho das Índias, novela exibia pela Rede Globo, a personagem Ruth, vivida por Cissa Guimarães, é uma mulher moderna, madura e sem um companheiro, que congelou seus óvulos para poder se tornar mãe quando chegasse o momento certo. Nesta altura da trama, ela já decidiu que este momento apropriado chegou e encontrou um pai para o seu filho, fez o tratamento para engravidar… E será mãe… Ruth influenciou a amiga Ciça, personagem de Aninha Lima, que também já optou pelo congelamento… “E além de Ciça, a personagem e a novela influenciaram milhares de telespectadoras, que ao assistirem a novela – muito superficial na abordagem da reprodução humana assistida – compram a idéia equivocada de ‘congele os seus óvulos, hoje, e garanta o seu bebê no futuro’”, afirma o ginecologista Prof° Dr. Joji Ueno, diretor da Clínica GERA.
O envelhecimento dos óvulos
A mulher nasce com um a dois milhões de óvulos, mas só cerca de 500 amadurecem. Os demais regridem e são absorvidos pelo organismo, a partir da puberdade. Não sendo fecundados, são mensalmente expelidos. O período fértil de cada mulher é bastante variável, mas, em média, inicia-se por volta dos 12 ou 14 anos de idade, terminando em torno dos 45 ou 50 anos. “Porém, é comum que por volta dos 35 anos, a produção de óvulos comece a declinar, bem como a qualidade dos mesmos. Esta é a principal razão para que os médicos alertem as pacientes para os riscos de uma gestação tardia”, diz Joji Ueno, que também coordena o Instituto de Ensino e Pesquisa em Medicina Reprodutiva de São Paulo.
Como a perda da capacidade de ovular é uma conseqüência natural do envelhecimento, os especialistas em Reprodução Humana dispõem de meios para avaliar a produção hormonal e os órgãos reprodutivos femininos: ovários, útero e trompas. Um dos exames mais conhecidos é o teste que mede, pelo exame de sangue, o hormônio folículo-estimulante (FSH). “Altas taxas de FSH, em dias específicos do ciclo menstrual, podem indicar que ocorreu um declínio na quantidade dos óvulos produzidos”, explica o diretor da Clínica GERA. Há a possibilidade de avaliar, também por meio do exame de sangue, as taxas de outros hormônios, como o estradiol, o LH e a inibina B. Alterações nas marcas dessas substâncias correspondem a quedas na quantidade dos óvulos.
Outro recurso utilizado nesta análise é a ultra-sonografia pélvica, por onde o especialista pode acompanhar quantos folículos estão sendo estimulados a se desenvolver em cada um dos ovários e quantos deles vão chegar ao ponto de maturidade. “Entretanto, é bom destacar que nenhum dos exames citados determina a reserva folicular da mulher, ou seja, o número de anos férteis que ela ainda tem. São apenas ferramentas importantes que utilizamos para proporcionar à paciente uma espécie de panorama da fertilidade dela”, explica Joji Ueno.
Como é feito o congelamento?
O procedimento para congelar o óvulo é usual, mas exige profissionais especializados e ambiente adequado para o armazenamento. Após exames de rotina, como o ultra-som e a dosagem hormonal, o especialista em Reprodução Humana vai avaliar se a mulher tem condições de, futuramente, ser indicada para a fertilização in vitro (FIV). Após ser aprovada nesses testes preliminares, a futura mãe é submetida a um processo de estimulação feito com hormônios, que dura um mês. “A paciente passa por um estímulo ovariano, produzindo um número maior de oócitos – óvulos – se comparado a um ciclo natural”, explica o médico.
Depois desses 30 dias de estimulação, é preciso impedir a menstruação. Para que isso não aconteça, a paciente recebe, por oito dias, um medicamento que inibe o sangramento menstrual. Só depois disso é que um outro medicamento será injetado para estimular a ovulação, que passa a ser monitorada pelo médico que a acompanha. Definida a data da coleta, a paciente passa por uma aspiração do maior número possível de óvulos, que serão congelados em nitrogênio líquido.
E o descongelamento?
“Apesar de ter sido aprimorada, a técnica de congelamento de óvulos ainda é pobre em resultados. Ou seja, não há segurança de que o óvulo estará viável para a fertilização após o descongelamento. É preciso cuidado ao oferecer o serviço, o médico deve informar à paciente que a técnica é experimental e que não é possível garantir que ela vá engravidar no futuro. É antiético oferecer a uma paciente um procedimento em que a taxa de sucesso seja tão mínima”, defende Joji Ueno.
O congelamento de óvulos sempre foi um desafio na área da reprodução assistida. Os espermatozóides são congelados com sucesso há mais de 50 anos, e os embriões há quase 15. Os óvulos, porém, esbarravam em dificuldades técnicas. Uma delas era que, na hora do descongelamento, muitos não suportavam o processo e “estouravam”. Em média, apenas 10% sobreviviam. Outro problema eram as alterações cromossômicas que apareciam após o processo, que inviabilizava a sua utilização.
Os casos de gravidez relatados por meio de óvulo congelado no mundo são poucos. “É um resultado aqui, outro ali… O congelamento do óvulo, com taxa de aproveitamento aceitável para uso rotineiro para preservar a fertilidade, ainda não é uma realidade. Portanto, estamos muito distantes de poder assegurar uma gravidez futura com o emprego desta técnica. Como vender, hoje, algo que você não tem certeza que irá entregar?”, questiona Ueno.
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