Prevenção da endometriose deve atingir dois públicos: adolescentes e mulheres em idade reprodutiva
Entre os dias 11 e 14 de março/2008, ginecologistas de todo o mundo estiveram reunidos em Melbourne, Austrália, durante o 10° Congresso Mundial de Endometriose, promovido pela Sociedade Mundial de Endometriose, WES – World Endometriosis Society. O ginecologista Joji Ueno, especialista em Reprodução Humana, diretor da Clínica Gera, foi um dos médicos brasileiros participantes do evento. “O principal objetivo da comunidade científica reunida em Melbourne foi definir novas tendências para a gestão da doença e soluções práticas para aliviar a dor e tratar a infertilidade, principais sintomas da doença”, afirma.
Só no estado de São Paulo, segundo dados da Secretaria de Saúde estadual, divulgados em outubro de 2007, houve um crescimento acentuado da incidência da endometriose. De acordo com dados do Sistema Único de Saúde (SUS), a quantidade de diagnósticos da doença aumentou cerca de 65% nos últimos sete anos. Em 2000, foram registrados 1.205 casos da doença e, em 2007, esse número pulou para 3.429, em São Paulo.
Segundo estimativas da ABEND – Associação Brasileira de Endometriose – a patologia está presente em 10% das mulheres em idade reprodutiva. Apresenta prevalência de 4,5 a 33,3% em mulheres submetidas a tratamento de esterilidade; 4,5 a 21,2% entre as pacientes atendidas com dor pélvica e 0 a 7,1% nas portadoras de tumoração pélvica.
A SBE – Sociedade Brasileira de Endometriose – estima que a doença acomete cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva e que mais de seis milhões de mulheres no Brasil sejam portadoras do distúrbio, considerado um problema de saúde pública.
Mas todos estes números citados podem não representar a verdadeira incidência de casos, já que a endometriose é uma doença difícil de ser diagnosticada. “Apesar da gravidade da doença e do grande número de mulheres que sofrem com este mal, a desinformação a respeito da endometriose leva ao diagnóstico tardio, piorando as condições de tratamento e prolongando o sofrimento feminino. Informações sobre a doença devem ser repassadas, principalmente a dois públicos: as adolescentes e às mulheres em idade reprodutiva”, afirma o especialista em Reprodução Humana, Joji Ueno.
O que deve ser dito às adolescentes?
No início da adolescência, os fluxos são irregulares, tanto em relação ao número de dias quanto ao intervalo entre eles. Porém, a situação se normaliza após dois anos, em média, após a menarca. “Se a variação se mantiver depois desse período, o ideal é consultar um ginecologista”, recomenda o médico.
De 40% a 50% das adolescentes que apresentam cólica incapacitante, quer dizer, dor intensa que requer repouso e as impede de exercer as atividades normais podem apresentar endometriose. “A recorrência de cólicas incapacitantes pode ser o primeiro sintoma da endometriose, que pode levar à infertilidade na idade adulta e que tem muito mais chances de ser contornada com um diagnóstico precoce”, afirma Joji Ueno.
A família tem papel fundamental no incentivo ao diagnóstico precoce. “A mãe, geralmente mais próxima da garota, não deve subestimar as queixas de cólica”, diz o médico. Mulheres que desenvolverão a enfermidade já podem ter, aos 14, 15 ou 16 anos, a tendência ou a manifestação leve da doença. O que poucos consideram é que essa dificuldade se desenvolve lentamente e pode ser desencadeada logo no início da idade reprodutiva, antes mesmo de a menina ter sua primeira relação sexual.
A idéia de que sentir dor ao menstruar não é nada demais é uma das razões para o diagnóstico tardio da doença. Segundo estimativas do Nepe, Núcleo Interdisciplinar de Ensino e Pesquisa em Endometriose, meninas que começam a sofrer com os sintomas na adolescência chegam ao diagnóstico até 12 anos depois, quando muitos estragos já foram feitos ao corpo.
Médicos e profissionais das diversas especialidades que acompanham adolescentes – hebiatras, endocrinologistas, ginecologistas, nutricionistas, professores – devem estar aptos a reconhecer os sinais da doença e recomendar a investigação. “A partir do diagnóstico, a estratégia de controle pode ser traçada, assegurando qualidade de vida a esta jovem”, defende Joji Ueno.
O que deve ser dito às mulheres em idade reprodutiva?
Das clínicas de fertilização vem a maioria das pacientes que partem para a investigação das causas da infertilidade e recebem o diagnóstico da endometriose. Embora não existam estatísticas precisas dos casos de infertilidade, é consenso entre os especialistas que essa é uma das causas mais freqüentes da dificuldade de engravidar, e sabe-se que metade das portadoras se torna infértil.
A classificação da endometriose leva em conta a extensão da doença. A mais aceita foi elaborada por uma sociedade americana e parte do procedimento de visualização das lesões, o passo seguinte depois do diagnóstico. O exame clínico, o marcador e exame de ultra-som são os meios adequados para definir as mulheres para as quais se deve indicar a laparoscopia, exame realizado sob anestesia através de pequenas incisões no abdômen por onde se introduz um tubo ótico de aproximadamente 10mm de diâmetro para visualizar as áreas da cavidade abdominal em que se fixaram os implantes – nome que se dá ao tecido endometrial deslocado.
“A laparoscopia é um procedimento cirúrgico menor que permite identificar tamanho, extensão e local de acometimento das lesões e iniciar imediatamente o tratamento adequado. É, ao mesmo tempo, um teste de diagnóstico que avalia a extensão da doença e uma forma de iniciar o tratamento da endometriose”, informa Joji Ueno.
“Por meio da laparoscopia, é possível fazer uma análise da cavidade abdominal, dos pontos com comprometimento pela doença, procurando ressecar sempre que possível os focos que se encontram nos ovários, trompas, útero, peritônio e intestino. Em relação aos cistos no ovário e no útero, a preocupação é retirá-los, mas preservando esses órgãos, uma vez que na maioria das vezes as pacientes são jovens e têm desejo reprodutivo”, explica o diretor da Clínica Gera.
Através da laparoscopia é possível ressecar também os focos existentes no tecido que reveste a cavidade abdominal (peritônio) e outros mais profundos localizados nos intestinos, indicativos de casos mais graves e que demandam tratamento efetivo.
“Após o tratamento, geralmente após a realização da laparoscopia, uma boa parcela das pacientes consegue engravidar, principalmente as mulheres em que as tubas não tiverem sofrido obstrução”, observa Joji Ueno. É por isso que no final da laparoscopia, costuma-se injetar contraste pelo canal do colo uterino para ver se ele sai pelas tubas. A caracterização dessa permeabilidade tubária é um ponto a favor de uma gravidez que depende, entretanto, de outros fatores como a função ovariana ou a não formação de aderências depois da cirurgia, por exemplo.
“Depois da laparoscopia, quando a doença está num estágio avançado, costuma-se indicar uma medicação para suprimir temporariamente a menstruação. São geralmente medicamentos que bloqueiam a função ovariana, durante três ou quatro meses, para a paciente poder se recuperar. Depois disso, a possibilidade da doença voltar existe, porque o retorno da função menstrual pode determinar o reaparecimento das lesões”, diz Joji Ueno. Por isso, em alguns casos, é preciso bloquear a menstruação por mais tempo e tomar cuidado depois das gestações para que não haja recidivas.
O controle da endometriose depende da boa administração da doença e nem sempre representa a extirpação eterna dos focos porque, em alguns casos, podem voltar. “Somados ao acompanhamento médico apropriado, encarar a vida com menos pressão, comer bem, praticar exercícios e cultivar o bem-estar também são elementos fundamentais para afastar as complicações da doença e manter corpo mente sob controle”, defende Joji Ueno.
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