Mulher que não tem filhos”incomoda”a sociedade

mai 4, 2011   //   por Clínica GERA   //   Imprensa  //  2 Comentários

Não há nada mais desagradável a uma mulher casada, ou mesmo solteira, ouvir a seguinte pergunta: “você ainda não tem filhos?” Se a pessoa tem mais de 39, então, o questionamento pode realmente machucar. Não é preciso dizer que, em certos casos, há quem dê uma estimulação camuflada em outra pergunta: “menina, você está esperando o quê?”

Em muitos casos a mulher espera bastante coisa: um parceiro fixo, uma doadora de óvulos compatível, um bom resultado do espermograma do marido, a biópsia do seu último aborto espontâneo… “A pergunta do ‘você ainda não tem filhos’ é bastante difícil de se responder para muitas pacientes com as quais converso diariamente”, conta Joji Ueno, ginecologista e diretor da clínica Gera. Segundo ele é surpreendente ouvir o número de casos em que as mulheres precisam detalhar o porquê de não ter filhos.

Fenômeno mundial

No mundo todo, cerca de 90 milhões de casais estão tentando engravidar, mas cada tratamento tem apenas 20% de chances de sucesso. O fato é que, se você é uma mulher e tem mais de 30 anos, no imaginário popular, é normal que você tenha filhos. Mais do que normal, esta é “a norma”. Norma que precisa ser repensada.

Mudanças

Ultimamente a realidade é outra: as mulheres sem filhos são uma minoria importante, que dobrou nos últimos 20 anos. Hoje, uma em cada cinco mulheres britânicas não tem filhos. E segundo as previsões do Office for National Statistics, (Escritório para Estatísticas Internacionais), quase um quarto das mulheres nascidas em 1973 não terá filhos até chegar ao final de sua vida reprodutiva: a idade de 45 anos. No grupo das britânicas mais graduadas, o número é maior: 40% não têm filhos aos 35 anos, e um terço delas nunca terá filhos.

“Por aqui, também temos números interessantes”, aponta o ginecologista. “A taxa de fecundidade brasileira decresceu da média nacional de 6,3 filhos, em 1960, para 5,8 filhos em 1970, chegando ao patamar de 2,3 filhos, em 2000″. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a região Sudeste foi a que registrou o menor índice de fecundidade, 2,1 filhos por mulher.

Respostas prontas

Apenas para registro, os motivos que levam uma mulher a não ter filhos são muito complexos e variados: problemas de saúde diversos, instabilidade financeira, falta de parceiro fixo, carreira, câncer, viuvez precoce, um parceiro fixo que não deseja filhos.

“É comum entre as pacientes um ressentimento em relação a ‘ser uma mulher sem filhos’. Muitas dizem que a sociedade as encara como se ‘algo estivesse faltando’, como se elas estivessem ‘perdendo o melhor da vida’, como se elas fossem um fracasso… Digo a elas que o olhar de censura ou de reprovação do outro é, porque, no fundo, a infertilidade ainda incomoda e assusta a sociedade”, ressalta Joji Ueno.

“Digo a cada uma das minhas pacientes que a melhor resposta é aquela que não a magoa, uma resposta que fale das suas opções e escolhas e que na hora de responder a deixe confortável. Essa resposta pode mudar ao longo dos anos: ‘não’, ‘meu marido não quer’, ‘nós não podemos ter filhos’…”.

FONTE: BONDE

2 Comentários

  • Gostei do artigo. Só discordo do doutor no seguinte ponto: a sociedade sente-se desconfortável diante da infertilidade, mas o maior temor mesmo é a perda do controle sobre o corpo da mulher. Não tive filhos por motivos de “força maior”. Entre amigos e família não tenho o menor problema em relação a isso, entretanto, no trabalho, passei por situações constrangedoras de colegas que me olhavam como se eu fosse uma criminosa, como se eu devesse algo para a “Receita Federal da Vida Alheia”. Tive que ser firme e com educação, exigir meu espaço como cidadã livre no meu ambiente de trabalho. Esse patrulhamento velado machuca muito e não vejo razão para que ele exista, uma vez que não tendo filhos não prejudico qualquer dos meus colegas, tão cidadãos quanto eu. Já tive vontade de “arranjar” uma criança só para cumprir as expectativas dos mais conservadores, mas repensei e não o fiz, afinal crianças precisam de pais amorosos e não de vacas de presépio.

    • Muito bom, cada caso é um caso, obrigado pela sua colaboração ao debate.

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